Sobre “jaquieta Branca”: depoimento de Lawrence Flores Pereira

Antes de tudo, a tradução do Bettoni harmoniza três qualidades: a precisão semântica no cotejo com o original, a qualidade estética que se manifesta na tradução impecável do fraseado complexo de Melville como na reconstituição do ritmo do original e também uma delicada e quase imperceptível reconfiguração semântica feita por meio de uso sutil de sinonímias. A tradução de Bettoni é inspirada pelo próprio texto de Melville: ela comporta, na sua sintaxe, a grandiosidade das impressões que o próprio Melville comunica em sua experiência como marinheiro. Assim, por exemplo, o respeito pelo detalhe, pela nomeação das partes constituintes do navio (longa tarefa de pesquisa para o tradutor). Vale lembrar que o próprio Melville não se contentava com a menção genérica, mas possuía um gosto pela descrição minuciosa. No livro aparecem, muitas vezes sequenciados, termos como gurupés, eslinga, enxárcia, sovela, e que foram recombinados magistralmente pelo tradutor em frases tão bem compostas que não temos nunca a impressão de estar lendo um texto traduzido. O leitor-tradutor que lê o livro nesta tradução retorna ao original e descobre que nada foi mudado, e que simplesmente Bettoni tem essa capacidade inigualável de encontrar equivalências vivas em português, mas, malabarista da palavra que é, sem perder o balanço da língua original. O ritmo do livro é estonteante em si mesmo.

Lawrence Flores Pereira, um dos jurados do Prêmio Literário da Biblioteca Nacional 2017, sobre tradução de Rogério Bettoni para Jaqueta Branca, de Herman Melville (Ed. Carambaia), vencedor na categoria Tradução (Prêmio Paulo Rónai)


confissão

“Confessarei, aliás, que o trabalho de tradução é a meus olhos coisa bem mais importante do que se pensa. A vida psíquica dos homens não tem  outro tabique tão forte como a linguagem. É, com efeito, graças à linguagem que se consegue pensar; ora, a faculdade de adaptação da linguagem herdada é tão pequena que a gente não pode, por assim dizer, conceber senão o que a língua permite , a tradução, que força uma língua a dobrar-se acompanhando as curvas de um pensamento estrangeiro, é, mais ou menos, o único meio de comunhão espiritual requintada entre as nações.”

— Michel Babits, “En traduisant Dante”, em Nouvelle Revue de Hongrie, maio de 1939. Tradução de Paulo Rónai, citado em Escola de tradutores.