morfologia de um jovem mineiro
Erudito, perspicaz, expert, prodigioso: qualquer uma dessas características seria justa, mas insuficiente para descrever a acuidade do jovem filósofo e tradutor Rogério Bettoni com o significado das palavras
Por Débora Didonê*
Mineiro nascido na interiorana Barbacena de 1978, criado em Niterói e hoje morador de Belo Horizonte, Rogério Bettoni dedica-se profissionalmente à tradução há mais de cinco anos – reunindo quase quarenta obras publicadas nas áreas de filosofia, história, ciências, artes, comunicação visual, design e literatura.
Certo de que a tradução fiel ao texto original não é apenas uma possibilidade, mas um compromisso com o autor, Bettoni não se furta de passar horas a fio em busca de um termo que finalmente se assente em cada texto. Como um escultor, polindo as obras frase a frase, faz do seu olhar uma tecla SAP, transitando facilmente da religião à cultura de rua, da filosofia à gastronomia, da crítica literária à ficção. Se um idioma permite infindáveis maneiras de comunicar, é desse ilimitado universo que o tradutor se nutre.
A atração de Bettoni pela língua inglesa tomou corpo quando era um menino de oito anos que ouvia os discos de pop internacional do irmão, cujas letras causavam curiosidade. Ganhou então de uma tia um presente inesquecível: um dicionário Collins Cobuild inglês-português – pequenino e de capa verde que, depois de 20 anos, foi dado a uma amiga como lembrança. Desde então, não havia uma música em inglês que escapasse dos olhos de lince de Bettoni. O interesse do garoto fez com que a professora da 7ª e 8ª série convertesse as repetitivas lições do verbo “to be” ao estudo morfológico do idioma. Nas tarefas exclusivas, ele juntava palavras conhecidas a prefixos e sufixos, descobrindo um vocabulário que nem sempre constava no pequeno Collins.
No ensino médio, outra professora o ajudou a aprofundar os estudos sobre tempos verbais, gerúndio, substantivos, plasticidade e mobilidade da língua, expressões e até as gírias e os palavrões – com os quais o adolescente se divertia muito. Semanalmente, Bettoni era contemplado com a tarefa de traduzir um “parágrafo cabeludo e ambíguo”. Com o tempo, criou gosto e seguiu transpondo ao português alguns dos poetas preferidos, como os estadunidenses William Carlos Williams, Sylvya Plath, Dorothy Parker e Elizabeth Bishop e o inglês Ezra Pound.
Ao cursar filosofia na Universidade Federal de São João Del Rei, aguçou o olhar para temas como a Filosofia da Linguagem, Fenomenologia e a Escola de Frankfurt – entre outras portas que se abriram durante os estudos. Na carreira de professor do ensino fundamental, em 2007, fez pós-graduação em tradução pela Universidade Federal de Minas Gerais, finalmente dedicando-se ao estudo específico da teoria da tradução.
De 2008 a 2010, período em que morou na capital paulista, Bettoni estreitou os laços com as editoras. Foi também nesse período que traduziu para as revistas Scientific American Brasil e Conhecer (BBC Knowledge) além de guias da National Geographic, da Editora Abril. Em setembro de 2010, retornou a Belo Horizonte, onde se dedica também à pesquisa conjunta de tradução intersemiótica, vídeo e cinema.
Versatilidade
Outra face notável de Bettoni, ainda como professor, se revelou na mescla de teorias de autores como Sartre, Roland Barthes e Walter Benjamin à análise e prática do “fazer filme”. Recebeu, em 2007, o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, um dos mais importantes no segmento de educação, por um projeto em que alunos da 8ª série foram instigados a explorar com inteligência novas tecnologias, como o celular, na produção de vídeos com a técnica do stop motion.
Bettoni sempre foi assim, versátil. O mesmo traquejo hoje usado para traduzir obras aparentemente díspares levou-o a produzir vídeos, dar aulas, escrever e discotecar ao mesmo tempo. Foi DJ profissional de electro e electropop, lecionou filosofia, ética, sociologia e artes visuais e sempre dedicou algum tempo à videoarte. Seu último filme, Cartas a Théo, uma interpretação intersemiótica de filosofia e poesia, foi exibido na Mostra do Filme Livre 2010, no CCBB, Rio de Janeiro, e, no mesmo ano, nos eventos Farofa Vol. II (Brazilian Urban Culture, Tokyo Edition) e Brazilian Night @ HIGHTI, ambos no Japão.
Nenhum de seus feitos deixa de ter a entrega do menino debruçado sobre o Collins verdinho para entender o pop rock cantado em inglês. Essa criança ávida por conhecimento, criada pela mãe e órfão de um pai que o instigou à leitura desde cedo, transformou-se em um inventivo tradutor. As nuances de um texto, suas lacunas e entrelinhas e seus possíveis descaminhos são vistos por Bettoni como uma relação amorosa, íntima, que faz questão de estabelecer com os autores. Paradoxalmente, os descaminhos dão a Bettoni as setas. Delas, ele faz seu próprio mundo, sempre atento a novas descobertas.
*Débora Didonê, jornalista. Conheceu Rogério Bettoni quando o entrevistou para a revista Nova Escola, em 2007. Desde então, virou sua fã.